Rabiscos #2
Trompetes e liquidificadores. Miles Davis era bom com um deles, mas será que era com o outro? Pouco importa. O andamento quebrado interrompe o pensamento, que já havia nascido inútil. Aliás, qual a verdadeira utilidade de trompetes e liquidificadores? Como é que não perguntam essas coisas no vestibular? Pode parecer filosofia de botequim, e provavelmente é. Mas como não parar para pensar nas pequenas grandes questões que afligem nosso cotidiano? Tenho inveja daquele que tem todas as respostas na ponta da língua. Você sabe exatamente como quer sua Coca-Cola? Gelo e limão? Copo ou canudo? Lata ou garrafa? Você quer a senha azul, para levar, ou a senha verde, para consumir no local? Você não consegue tomar nenhuma decisão sozinho? Que eu saiba, também estou pagando pelo serviço, o que me desobriga de pensar. Chega o cachorro-quente. A inconstância do jazz como metáfora para a vida. As moedas tilintando e as pessoas inertes, com o pensamento uniformizado e catalogado, sorrindo sem querer. A madeira que nos cerca e aquece dá a segurança que alimenta nossos vícios. O gosto picante do ketchup se transforma em um hálito de nada, um sabor morto que não me faz sair do lugar. As vozes agudas e as risadas forçadas me contaminam. Pessoas comuns que não ambicionam nada além disso. A mediocridade confortável e sem dor. Quem quer, quem precisa de mais? Mais um questionamento imbecil: menos pode ser mais? Tente viver sem papel higiênico e me responda. Perfure os globos oculares e acabe com suas dúvidas. Beba apenas água e coma biscoitos integrais. Dê um fim ao seu dilema. Amasse meu ouvido direito com o barulho do saco de papel, leve o pão para caridade e me deixe em paz. Não há caminho que vá me deixar mais satisfeito que o do silêncio. Chega dessa incompreensível maçaroca de palavras que não leva a lugar nenhum. É preciso ser Miles Davis para saber improvisar.