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Arquivo da Categoria ‘crônicas’

Rabiscos #2

2, setembro, 2010 Leonardo Tissot Sem comentários

Trompetes e liquidificadores. Miles Davis era bom com um deles, mas será que era com o outro? Pouco importa. O andamento quebrado interrompe o pensamento, que já havia nascido inútil. Aliás, qual a verdadeira utilidade de trompetes e liquidificadores? Como é que não perguntam essas coisas no vestibular? Pode parecer filosofia de botequim, e provavelmente é. Mas como não parar para pensar nas pequenas grandes questões que afligem nosso cotidiano? Tenho inveja daquele que tem todas as respostas na ponta da língua. Você sabe exatamente como quer sua Coca-Cola? Gelo e limão? Copo ou canudo? Lata ou garrafa? Você quer a senha azul, para levar, ou a senha verde, para consumir no local? Você não consegue tomar nenhuma decisão sozinho? Que eu saiba, também estou pagando pelo serviço, o que me desobriga de pensar. Chega o cachorro-quente. A inconstância do jazz como metáfora para a vida. As moedas tilintando e as pessoas inertes, com o pensamento uniformizado e catalogado, sorrindo sem querer. A madeira que nos cerca e aquece dá a segurança que alimenta nossos vícios. O gosto picante do ketchup se transforma em um hálito de nada, um sabor morto que não me faz sair do lugar. As vozes agudas e as risadas forçadas me contaminam. Pessoas comuns que não ambicionam nada além disso. A mediocridade confortável e sem dor. Quem quer, quem precisa de mais? Mais um questionamento imbecil: menos pode ser mais? Tente viver sem papel higiênico e me responda. Perfure os globos oculares e acabe com suas dúvidas. Beba apenas água e coma biscoitos integrais. Dê um fim ao seu dilema. Amasse meu ouvido direito com o barulho do saco de papel, leve o pão para caridade e me deixe em paz. Não há caminho que vá me deixar mais satisfeito que o do silêncio. Chega dessa incompreensível maçaroca de palavras que não leva a lugar nenhum. É preciso ser Miles Davis para saber improvisar.

Rabiscos #1

31, agosto, 2010 Leonardo Tissot 3 comentários

Estou fazendo um curso de escrita criativa. De vez em quando vou postar alguma coisa da produção semanal por aqui.

———

- Oi.
- Oi.

- Tudo bem?
- Como assim?

- Como assim o quê?
- Como assim “tudo bem”?

- Quero saber se você tá legal.
- Bom, então pergunta direito.

- Você tá legal?
- Ah, naquelas.

- Por quê?
- Você leu o jornal hoje?

- Não. O que aconteceu?
- O mesmo de sempre. Assalto, assassinato, inflação.

- E tá chateado por isso?
- Tu não tá?

- Bom, sim. Mas não me deixo abater.
- OK. Te entendo e respeito. Mas não tá “tudo” bem.

- É, não tá, nem jamais estará. Mas não dá pra ficar se deprimindo por causa disso.
- Qualé, cara?

- Qualé o quê?
- Se eu quiser me deprimir, me deprimo e tu não tem nada com isso.

- Tá legal, relaxa. Fica frio. Não tá mais aqui quem falou.
- Não tá mais aí?

- Não.
- E tá aonde?

- Papo de doido. Bora tomar um café?
- Bora.

- Acho que vou querer um capuccino.
- Pra mim um expresso duplo. Quente como o inferno.

- E uma fatia de bolo de chocolate?
- Não, prefiro um sanduíche de presunto.

- Tu anda vendo muito Chaves.
- É só o que consigo assistir na TV aberta.

- Prefiro uma reprise qualquer de seriado americano.
- Ah, não. Dublado não dá.

- Chaves também é dublado.
- Ah, mas é diferente.

- Diferente como?
- Bom, um é dublado do inglês e outro do espanhol, pra começo de conversa.

- Tá, e daí?
- E aí que a relação que eu tenho com o Chaves sempre foi assim. Dublada. Nunca no idioma original.

- Isso é verdade. E as piadas também são traduzidas com mais fidelidade.
- Que piadas?

- As piadas do Chaves!
- E quem falou que eu gosto das piadas?

- Tu não assiste Chaves pra rir?
- Rir do Chaves? Um menino de rua que não tem o que comer?

Bastidores do jornalismo

18, dezembro, 2009 Leonardo Tissot Sem comentários

- Luis, teu nome se escreve com “S” com ou “Z”?
- Com “S”.
- Com acento ou sem acento?
- Olha, aí nem sei. Deveria ter, né? Mas não é todo mundo que usa.

O taxista comediante

9, novembro, 2009 Leonardo Tissot 3 comentários

A cada dia descubro mais e mais as figuraças de Porto Alegre. Ainda preciso escrever sobre algumas delas, como o Woody Allen do Bom Fim, por exemplo.

Sábado de manhã entrei num táxi. O motorista era nada menos que um stand-up comedian. Ou um sit-down comedian, se formos levar em conta a necessidade de dirigir sentado.

Durante a corrida, o cara desfilou uma piada atrás da outra, naquele mesmo timing de Jerry Seinfeld, Bill Maher e outros: introduzia o tema da piada (que podia ser carros, cachorros ou mulheres), lançava uma pergunta e, segundos depois, antes mesmo que eu pudesse responder, já disparava a resposta.

Ele não ria, como todo bom comediante. O problema é que eu também não. Quer dizer, até forcei um pouco algumas vezes, para o clima não ficar muito chato. Até porque a primeira piada foi meio violenta.

A manhã estava chuvosa, e ele revelou que já sabia desde o dia anterior como estaria o clima. “Eu tenho um relógio que me avisa”, disse. E mostrou uma cicatriz grotesca de 15 cm no pulso esquerdo, fruto de um acidente enquanto trocava o pneu do carro. “Tenho uma placa de metal meteorológica”, falou, numa irona demente que mais parecia alívio cômico de um filme de terror.

Depois, continuou palestrando sobre peitões, colocar gasolina no ânus dos filhos, entre outras escatologias que não animaram nem um pouco o meu sábado. Mas tenho que dar uma folga pro cara: seria realmente difícil alegrar um fim de semana em que era necessário trabalhar.

De qualquer forma, ele não era muito pior que nenhum desses caras do CQC, não… Seja amadora ou profissional, stand-up comedy brasileira (a.k.a., “comédia de pé”): não trabalhamos.

Pegadinhas da língua portuguesa

30, outubro, 2009 Leonardo Tissot 1 comentário

Se tem uma palavra usada gratuitamente por aí, é “diferencial”. Todo mundo adora dizer que a sua marca, produto ou serviço tem um diferencial, mesmo que ofereçam aos seus clientes a mesma porcaria feita pela concorrência.

Estava revisando uma matéria, procurando por palavras repetidas no texto, com o objetivo de trocar por sinônimos, e encontrei o termo “diferencial” duas vezes, em parágrafos seguidos. Fui ao dicionário em busca de outra palavra com o mesmo significado para substituir.

No Houaiss, pensando que iria achar uma solução, encontro:

“Diferencial”

Sinônimos
ver sinonímia de ânus

Coisa de português, claro. É uma forma jocosa de usarem o termo na terra de Fernando Pessoa.

Num contexto brasileiro, a única situação em que consigo imaginar “diferencial” e “ânus” tendo o mesmo significado, é em anúncio de mulher da vida: “O meu diferencial é o seu prazer.” Ou, ainda, em propaganda de exame de próstata: “Dê à sua saúde um toque diferencial.”

O inverso também vale. Fique ligado se disserem que você tem um “trabalho diferenciado” ou coisa que o valha. Podem estar, veladamente, lhe mandando tomar no cu.

O Segurança

21, outubro, 2009 Leonardo Tissot Sem comentários

Parada de ônibus, duas e meia da tarde. Um cidadão de bicicleta se aproxima. Cerca de 25 anos. Boné na cabeça, escondendo os cabelos longos e sujos. Carregava consigo o menor gato do mundo, literalmente a tiracolo.

- Esse aqui é o meu SEGURANÇA – brada, apontando para o focinho do bichano.

Eu, já temendo ouvir um diálogo pseudo-bíblico qualquer, num tom de voz alterado – tipo Samuel L. Jackson em Pulp Fiction -, provavelmente dei um ou dois passos para trás. Duas velhinhas que também esperavam o ônibus tiveram a mesma atitude. Sabemos que uma rajada de tiros dói. Dói muito.

- Sei que a minha cara não é BONITA. Mas não precisam ter medo.

Ele realmente achou que ficaríamos aliviados depois dessa? Tenta de novo, bróder.

- Só quero DEZ CENTAVOS pra comprar um LEITINHO pro meu SEGURANÇA.

“Pedido de esmola mais demente e criativo da face da Terra”, pensei.

Paguei, de bom grado, CINQUENTA CENTS. As velhinhas também sacaram alguns níqueis de suas moedeiras e entregaram ao rapaz, mesmo sabendo que ele iria gastar tudo em crack.

Só espero que o segurança tenha levado a parte que lhe cabia no golpe.

Apenas rock n’ roll

Não foi uma noite histórica. Não foi uma noite heróica. Foi apenas rock n’ roll. Mas isso basta. Pelo menos bastou na noite de ontem, quando o Oasis levou ao Gigantinho 12 mil seres que insistem em gostar desse gênero musical ultrapassado, desgastado, velho e caquético.

Estava nublado. Não muito frio. Não muito quente. A temperatura ideal para fazer qualquer coisa. Claro que eu estou ficando meio velho pra isso. Não tenho mais saco de sair de casa por qualquer coisa. Tem que valer muito a pena.

É cansativo chegar cedo pra pegar um lugar bom – que eu consegui, nas arquibancadas, porque o ancião aqui precisa sentar constantemente. Aí vem a longa espera, o show de abertura, o empurra-empurra… Nunca tive muita paciência pra grandes multidões.

Mas posso dizer com toda a certeza que valeu a pena. Não vou entrar no mérito das briguinhas entre os Gallagher, simplesmente porque é
inaceitável que isso ainda dê Ibope. Os caras são colegas de trabalho,
não precisam conviver socialmente se não estiverem a fim. O fato de
serem irmãos é mero detalhe. E como parceiros musicais, ainda funcionam muito bem, sim.

A voz de Liam Gallagher não é mais a mesma, claro. O cara não alcança certas notas tão facilmente. As músicas do primeiro disco foram as que mais obviamente sofreram com isso – “Rock N’ Roll Star” e “Slide Away”, principalmente. Mas estava bem melhor do que no show do Rio, transmitido pela TV, no qual ele parecia estar realmente gripado.

Noel é um cara baixinho de tênis e camiseta, não muito diferente de
nenhum de nós, mas com um talento realmente fora do comum. As
composições se valorizam muito quando assistidas ao vivo. Percebe-se ainda mais claramente que ele é a verdadeira alma da banda. A ausência de Liam mal é notada em músicas como “The Masterplan”, “The Importance of Being Idle” – as minhas favoritas da noite – e, claro, “Don’t Look Back in Anger”.

Os demais são meros coadjuvantes. Exceto o baterista atual, Chris Sharrock, o melhor titular que as baquetas do Oasis já teve.

Muitos falam que os shows da banda são burocráticos. Muito profissionais. Por um lado, têm razão. Por outro, quem ousaria experimentar e improvisar em músicas perfeitas – nota por nota – como “Champagne Supernova” e “Morning Glory”, por exemplo?

Claro, nem tudo foi perfeito. Ainda tá difícil assistir a um show com som decente por aqui. O do R.E.M. chegou perto. Infelizmente, apesar de completamente límpido, estava muito baixo. Já no caso do Gigantinho, o problema é a acústica mesmo. O volume estava ótimo, mas às vezes embolava um pouco. Ainda assim, nada que estragasse a experiência completamente.

Quem não gosta de Oasis – e não são poucos os que “amam odiar” a banda de Manchester – vai continuar não gostando e dificilmente mudaria de opinião assistindo-os ao vivo. Já quem foi ao show não tem motivos pra sair reclamando. Foi apenas mais uma apresentação para eles. E para nós também.

It’s only rock n’ roll. But we like it.

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Não é nossa culpa

18, fevereiro, 2009 Leonardo Tissot 3 comentários

Eu vivo explicando para as mulheres que, quando olhamos para outras na rua, não é nossa culpa. É simplesmente impossível evitar o movimento dos olhos e da cabeça em direção a uma gostosa que cruza nosso caminho. Nossa natureza é assim e não há nada que possamos fazer a respeito.

Elas, é claro, nunca me levaram a sério. Preferem me tirar pra Cristo e vociferar clichês: homem não presta, é tudo cafajeste e toda aquela ladainha que eu e você estamos cansados de conhecer.

Pode até ser. Mas uma pesquisa da AAAS (Sociedade Americana para o Avanço da Ciência) comprova nossa inocência. A questão vai muito além do “prestamos ou não prestamos”. Se nosso cérebro funciona desta forma – observamos mulheres gostosas como objetos –, sem que tenhamos consciência plena do que ocorre, já que se trata de um processo químico, o que diabos vocês querem que a gente faça?

Uma mulher, a professora de psicologia da renomada Universidade de Princeton, Susan Fiske – a propósito, longe de ser um exemplar feminino que cause tamanho furor em nossos incautos neurônios – é quem nos defende: “tecnicamente, podemos usar uma espécie de eufemismo neurológico e dizer que o homem não tem essa atitude de uma forma premeditada. É algo que ele não racionaliza”.

Portanto, antes de achincalhar seu namorado ou marido por ele olhar para aquela bundinha arrebitada ou para aquele par de peitões de tirar o fôlego, lembre-se: ele não sabe o que está fazendo.

Mas pode ter certeza de que ele sabe o que gostaria de estar fazendo.

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Lazy Bird

23, janeiro, 2009 Leonardo Tissot 5 comentários

Eu imaginava que ouvir jazz fosse aquela coisa de velho que chega em casa e toma um talagaço de uísque pra esquecer como a vida dele é uma merda. Talvez até seja. Mas funciona que é uma beleza.

Ando ouvindo algumas coisas do estilo. Coltrane, Miles Davis, Benny Goodman. Achei que só ia começar bem depois dos 30. Errei feio.

Não é difícil ouvir jazz quando já se ouve rock há muitos anos. As músicas são mais compridas, claro. Não têm letra, nem gente cantando. Ao menos no free jazz e subgêneros similares dos anos 50 e 60. Mas se tu curte o The Song Remains The Same, do Led Zeppelin, não tem tanta diferença assim. A experimentação, a loucura e a habilidade dos músicos são as mesmas. O que muda é a forma, mas o conceito é semelhante.

Ainda não sei identificar porra nenhuma dos instrumentos. Um saxofone tenor e um clarinete não tem muita diferença pra mim. Mas o sentimento e a paudurescência musical são muito nítidas.

Os caras eram mestres absolutos no que faziam, porque tinham um tesão absurdo pela música. E sabiam o que queriam tocar, nota por nota. Mesmo nos momentos de improvisação, que não eram poucos.

Esta noite vou conhecer o Odeon. Não o bar guei de Pelotas. Desse eu já sou frequentador assíduo.

Estou falando do bar de jazz que tem aqui em Porto Alegre. Acho que vou gostar. Principalmente porque o jazz tem me inspirado a fazer coisas que não estou acostumado. Ou, no mínimo, a pensar de forma um pouco diferente, o que sempre é bom.

Capaz até de eu pedir um uísque.

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Em mal-traçadas linhas…

21, janeiro, 2009 Leonardo Tissot 1 comentário

Este texto deveria ter sido publicado no blog do Traço Todas, em 2007. Na época, não achei bom o suficiente. Hoje, editado aqui e ali e com o distanciamento que só o tempo dá, não me parece tão ruim. Só me nego a tirar os tremas.

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Eu estava no banheiro. Você também estaria, se tivesse bebido tanto quanto eu. Afinal, eu estava no Traço Todas. E, bem, a verdade é que eu não desenho merda nenhuma. Então, o que mais poderia fazer, a não ser jogar conversa fora e me enroscar em algumas loiras geladas? Ir ao banheiro com freqüência talvez não seja o mais incômodo, mas certamente é o mais imediato dos efeitos colaterais de tanto trago.

Após terminar o serviço, lavei as mãos e saí. Quando voltei para a mesa na qual os artistas traçavam (e eu também), não havia ninguém. E eu sabia muito bem o motivo. Era apenas mais uma atração da chuvosa noite de 10 de novembro no Gibi Bar Bruschetteria.

Mas vamos começar do princípio.

Era mais um sábado solitário. As cervejas da noite anterior permitiram que eu dormisse até umas dez e meia da manhã. O sol, que rasgava a janela e as cortinas do quarto, bem como minhas pupilas, não deixou que eu levasse adiante os sonhos então presentes, que escaparam para sempre da memória.

Mas chega de linguagenzinha pseudo-poética e papinho furado. Este texto foi encomendado como um relato gonzo da terceira (ou seria segunda?) edição do Traço Todas, evento de desenhistas para desenhistas, criado pelos meus colegas de trabalho Maumau e Azeitona. Porém, como todo bom relato gonzo é escrito em primeira pessoa e leva o umbiguismo ao nível mais avançado possível, fui obrigado a começar falando de mim mesmo. Aliás, o jornalismo gonzo prega que o repórter se torne um personagem da história a ser contada. Portanto, não esperem um relato frio ou muito fiel, tampouco algo coerente. O medo e o delírio eternizados nas páginas de Hunter S. Thompson devem, ao menos, inspirar um pouco do que está prestes a ser relatado.

Além do mais, o que menos foi feito naquela noite foi entrevistar alguém para reportar alguma coisa. A não ser que os caríssimos leitores considerem o ato de grudar-se em cevas desde as seis da tarde uma maneira de sugar informações de uma fonte. Pensando bem, não deixa de ser. Mas, na real, não conversei com muita gente em minha breve passagem pelo Gibi. Aliás, por muito pouco não deixei de estar presente. Verdade seja dita: a chuva que caiu em Porto Alegre por volta das cinco da tarde naquele sábado quase me manteve em casa, bebendo bukowskianamente e ouvindo artistas tão díspares quanto Kings of Leon, Lynyrd Skynyrd e Pink Floyd. Mas aos poucos ela foi se acalmando, como um bom solo de guitarra blueseiro, me animando um pouco mais.

Então tá. Finalizadas as Polares compradas no supermercado, era hora de encarar uma breve pernada até a rua Bento Figueiredo, no bairro Bom Fim, onde se localiza o Gibi Bar, casa que abraça os artistas do Traço Todas em sua jornada regada a trago e criação enlouquecida. A idéia é que, ao chegar em casa, eu faça a mesma coisa que os artistas presentes: escreva sob a influência do álcool. O problema todo é que depois do evento ainda rolaram mais umas biritas em uma festa não muito longe dali, no bom e velho Ocidente. Algumas horas se passaram e o escriba, todo fiadaputizado, ficou sem a menor condição de juntar um sujeito com um predicado.

Mas as lembranças não se foram junto com os neurônios destruídos pela cevada. Além dos marcantes desenhos criados na noite, ainda restou uma grande história para ser contada – a presença de uma lenda da sétima arte no Gibi: o temido e poderoso Buddy Revell. Lembram daquele clássico da sessão da tarde, Te Pego Lá Fora? Pois bem, o malvadão do filme esteve lá no bar, pronto para dar porrada no primeiro sujeito engraçadinho que aparecesse na frente dele. O cara tava loucaço: gritava com as paredes, se confundia na hora de pagar suas cevas, levantava indignado e saía caminhando pelo bar, à procura de não se sabe bem o quê. Então, depois de cerca de meia hora de observação daquele comportamento estranho, com todo mundo mais antenado ao movimento seguinte do valentão que aterrorizou Jerry Mitchell do que aos desenhos, fiz algo que todo bom bêbado faz, mas que jornalista algum deveria – gonzo ou não-gonzo: levantei para ir até o banheiro, deixando o ambiente onde a ação estava prestes a acontecer. E não foram mais de dois minutos até a minha saída e volta ao lugar de origem. Mas a coisa pegou fogo de vez.

Quando me aproximei da mesa, não havia mais ninguém ali. Não precisei de um segundo para perceber que nosso Revell gaudério havia entrado em ação. Após a tentativa de agredir algumas pessoas, em uma confusão que ninguém soube explicar direito, ele se retirou, levando junto todos os curiosos freqüentadores do bar. Ninguém entendeu direito se aquilo tinha rolado pra valer ou se era só uma ação publicitária criada para inspirar os artistas. De qualquer forma, a partir daí, o clima melhorou, e a criação começou a rolar pra valer.

Com a chegada do fotógrafo oficial do evento, Marcelo Juchen, a coisa ficou ainda melhor. Inclusive inspirou o Azeitona a desenhar uma versão Gollum-punk do Marcelo, que ostentava um grandioso e célebre moicano. Aliás, o nosso amigo das olivas estava inspirado, já tendo homenageado o Maumau, com um desenho zumbi. Para quem não sabe, o Maumau DESPREZA zumbis.

Naturalmente, os demais artistas presentes também fizeram bonito, o que pode ser conferido nos registros fotográficos da noite, já publicados neste blog. Quanto a mim, bem, talvez eu deva tomar vergonha na cara e começar a rabiscar alguma coisa que não sejam letras. Quem sabe assim eu bebo menos e produzo algo mais interessante da próxima vez. Nem que sejam desenhos das circunferências dos copos e garrafas que elevam as noites a um belo e etílico patamar.

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