Este texto deveria ter sido publicado no blog do Traço Todas, em 2007. Na época, não achei bom o suficiente. Hoje, editado aqui e ali e com o distanciamento que só o tempo dá, não me parece tão ruim. Só me nego a tirar os tremas.
——————————–
Eu estava no banheiro. Você também estaria, se tivesse bebido tanto quanto eu. Afinal, eu estava no Traço Todas. E, bem, a verdade é que eu não desenho merda nenhuma. Então, o que mais poderia fazer, a não ser jogar conversa fora e me enroscar em algumas loiras geladas? Ir ao banheiro com freqüência talvez não seja o mais incômodo, mas certamente é o mais imediato dos efeitos colaterais de tanto trago.
Após terminar o serviço, lavei as mãos e saí. Quando voltei para a mesa na qual os artistas traçavam (e eu também), não havia ninguém. E eu sabia muito bem o motivo. Era apenas mais uma atração da chuvosa noite de 10 de novembro no Gibi Bar Bruschetteria.
Mas vamos começar do princípio.
Era mais um sábado solitário. As cervejas da noite anterior permitiram que eu dormisse até umas dez e meia da manhã. O sol, que rasgava a janela e as cortinas do quarto, bem como minhas pupilas, não deixou que eu levasse adiante os sonhos então presentes, que escaparam para sempre da memória.
Mas chega de linguagenzinha pseudo-poética e papinho furado. Este texto foi encomendado como um relato gonzo da terceira (ou seria segunda?) edição do Traço Todas, evento de desenhistas para desenhistas, criado pelos meus colegas de trabalho Maumau e Azeitona. Porém, como todo bom relato gonzo é escrito em primeira pessoa e leva o umbiguismo ao nível mais avançado possível, fui obrigado a começar falando de mim mesmo. Aliás, o jornalismo gonzo prega que o repórter se torne um personagem da história a ser contada. Portanto, não esperem um relato frio ou muito fiel, tampouco algo coerente. O medo e o delírio eternizados nas páginas de Hunter S. Thompson devem, ao menos, inspirar um pouco do que está prestes a ser relatado.
Além do mais, o que menos foi feito naquela noite foi entrevistar alguém para reportar alguma coisa. A não ser que os caríssimos leitores considerem o ato de grudar-se em cevas desde as seis da tarde uma maneira de sugar informações de uma fonte. Pensando bem, não deixa de ser. Mas, na real, não conversei com muita gente em minha breve passagem pelo Gibi. Aliás, por muito pouco não deixei de estar presente. Verdade seja dita: a chuva que caiu em Porto Alegre por volta das cinco da tarde naquele sábado quase me manteve em casa, bebendo bukowskianamente e ouvindo artistas tão díspares quanto Kings of Leon, Lynyrd Skynyrd e Pink Floyd. Mas aos poucos ela foi se acalmando, como um bom solo de guitarra blueseiro, me animando um pouco mais.
Então tá. Finalizadas as Polares compradas no supermercado, era hora de encarar uma breve pernada até a rua Bento Figueiredo, no bairro Bom Fim, onde se localiza o Gibi Bar, casa que abraça os artistas do Traço Todas em sua jornada regada a trago e criação enlouquecida. A idéia é que, ao chegar em casa, eu faça a mesma coisa que os artistas presentes: escreva sob a influência do álcool. O problema todo é que depois do evento ainda rolaram mais umas biritas em uma festa não muito longe dali, no bom e velho Ocidente. Algumas horas se passaram e o escriba, todo fiadaputizado, ficou sem a menor condição de juntar um sujeito com um predicado.
Mas as lembranças não se foram junto com os neurônios destruídos pela cevada. Além dos marcantes desenhos criados na noite, ainda restou uma grande história para ser contada – a presença de uma lenda da sétima arte no Gibi: o temido e poderoso Buddy Revell. Lembram daquele clássico da sessão da tarde, Te Pego Lá Fora? Pois bem, o malvadão do filme esteve lá no bar, pronto para dar porrada no primeiro sujeito engraçadinho que aparecesse na frente dele. O cara tava loucaço: gritava com as paredes, se confundia na hora de pagar suas cevas, levantava indignado e saía caminhando pelo bar, à procura de não se sabe bem o quê. Então, depois de cerca de meia hora de observação daquele comportamento estranho, com todo mundo mais antenado ao movimento seguinte do valentão que aterrorizou Jerry Mitchell do que aos desenhos, fiz algo que todo bom bêbado faz, mas que jornalista algum deveria – gonzo ou não-gonzo: levantei para ir até o banheiro, deixando o ambiente onde a ação estava prestes a acontecer. E não foram mais de dois minutos até a minha saída e volta ao lugar de origem. Mas a coisa pegou fogo de vez.
Quando me aproximei da mesa, não havia mais ninguém ali. Não precisei de um segundo para perceber que nosso Revell gaudério havia entrado em ação. Após a tentativa de agredir algumas pessoas, em uma confusão que ninguém soube explicar direito, ele se retirou, levando junto todos os curiosos freqüentadores do bar. Ninguém entendeu direito se aquilo tinha rolado pra valer ou se era só uma ação publicitária criada para inspirar os artistas. De qualquer forma, a partir daí, o clima melhorou, e a criação começou a rolar pra valer.
Com a chegada do fotógrafo oficial do evento, Marcelo Juchen, a coisa ficou ainda melhor. Inclusive inspirou o Azeitona a desenhar uma versão Gollum-punk do Marcelo, que ostentava um grandioso e célebre moicano. Aliás, o nosso amigo das olivas estava inspirado, já tendo homenageado o Maumau, com um desenho zumbi. Para quem não sabe, o Maumau DESPREZA zumbis.
Naturalmente, os demais artistas presentes também fizeram bonito, o que pode ser conferido nos registros fotográficos da noite, já publicados neste blog. Quanto a mim, bem, talvez eu deva tomar vergonha na cara e começar a rabiscar alguma coisa que não sejam letras. Quem sabe assim eu bebo menos e produzo algo mais interessante da próxima vez. Nem que sejam desenhos das circunferências dos copos e garrafas que elevam as noites a um belo e etílico patamar.